Sou formado numa época em que tínhamos, às vezes, 04 empregos públicos e o consultório. Os hospitais públicos eram de excelente padrão, nos permitindo uma medicina de extrema qualidade, onde, frequentemente, internávamos nossos pacientes particulares. Havia ainda os hospitais privados que eram conveniados com o INPS – INAMPS – SUS, que ofereciam mercado de trabalho complementar. Não havia as operadoras de saúde do tipo medicina de grupo, que oferecessem planos particulares. Os planos coletivos se limitavam às operadoras de autogestão, limitadas às Caixas de Assistência de órgãos públicos, que em sua maioria possuíam serviços próprios. Em alguns bairros mais afastados no interior já existiam as clínicas de associados, geralmente em casas antigas da localidade, que abrangiam a população do entorno, nos atendimentos do dia a dia, evitando o deslocamento para os serviços públicos dos grandes centros.

Vejo um panorama atual muito diferente, ao qual temos a obrigação de nos adaptar, sob risco de não termos mercado para desenvolver a atividade médica.

Os serviços públicos não abrem mais concursos, sendo conduzidos por terceirizações ou contratos temporários. Estatutários com estabilidade, direitos trabalhistas e condições de trabalho … NUNCA MAIS.

As autogestões se posicionaram como meras administradoras financeiras, voltadas para aposentadoria e benefícios, não mais oferecendo serviços médicos próprios e contratando a assistência médica de terceiros.

As Operadoras de Saúde do tipo medicina de grupo tiveram um boom, enquanto o serviço público desidratou, e hoje passam por adequações e legislação específica, ensejando a criação de uma agência reguladora (ANS). O governo, que não oferece assistência médica suficiente, impõe regras àqueles que assistem grande parte da população. Hoje, com uma tendência à verticalização, estão montando seus serviços próprios e, em sua maioria, “contratando” o médico sob forma de PJ.

A saúde complementar, que era praticada por hospitais, clínicas, laboratórios, casas de saúde etc., conveniados ao SUS, sucumbiram aos baixos valores praticados e faliram ou mudaram de nicho no mercado.

E aquelas clínicas de associados da periferia ganharam robustez e novo formato, com suas sedes suntuosas, diversas especialidades e exames mais sofisticados, disfarçadas de clube de benefícios, a fim de navegar abaixo do radar da ANS, com “descontos” nos atendimentos para os clientes do clube (uma forma de coparticipação), e que remuneram o médico em espécie, sem qualquer forma de vínculo, imediatamente ao final do atendimento de cada plantão. Estão se estruturando em redes de filiais e franquias.

Aos colegas, que ainda tentam manter seus consultórios e clínicas, estão tendendo a alugar espaços em espaços coletivos, e quando mantêm suas clínicas praticam a terceirização dos serviços complementares.

Vamos nos adaptar!!!!!