Nos últimos anos alguns romances brasileiros sobressaem, segundo os especialistas; seja por sua qualidade ou pela vendagem (no Brasil, 50 mil livros vendidos são considerado um sucesso). Um deles (pela qualidade) é o livro “DOIS IRMÃOS”, de Miltom Hatoum. Lançado em 2000, o livro pode ser classificado como um drama familiar. Descreve a saga de uma família tradicional de imigrantes libaneses já adaptados ao Brasil, particularmente em Manaus, em meados do século 20. Discorre principalmente sobre o conflito entre Milton Hatoum - dois irmãosdois irmãos gêmeos: Omar (extrovertido e caçula), Yaqub (tímido), a mãe, Zana (doméstica e obcecada por Omar), o pai e comerciante, Halim (apaixonado por Zana e, por isso, condescendente com os exageros de Omar), e por fim a filha, pouco expressiva na trama, Rânia. Na infância nada de importante ocorre, exceto a obsessão de Zana pelo caçula, Omar, fazendo todas suas vontades. Na adolescência, ocorre um fato marcante na trama: o conflito entre os irmãos, após disputarem uma mesma possível namorada (Lívia). Numa festa, Omar agride Yaqub, com uma garrafa quebrada no rosto.

Os pais, percebendo o ódio entre os irmãos, resolvem enviar (principalmente por interferência de Zana), somente Yaqub para ficar com os familiares no Líbano, permanecendo longe da família por anos. A partir deste fato, Yaqub, sentindo-se injustiçado, torna- -se “frio” com os demais familiares, não retribuindo as várias cartas enviadas a ele. Retorna ao Brasil, torna-se mais recatado, e inicia os estudos com afinco. Enquanto isso seu irmão Omar, sempre com o aval de sua mãe, torna-se um homem envolvido com uma vida desregrada, dos prazeres mundanos, sem responsabilidade com o trabalho, e afeito ao álcool e às noitadas, mas sempre protegido pela mãe, apesar das diversas confusões que apronta. Yaqub continua os estudos e finalmente consegue passar a estudar em São Paulo, tornando-se engenheiro e casando-se com a antiga namorada, Lívia (motivo da antiga discórdia). Continua a manter pouco relacionamento com seus familiares, enquanto Omar persiste em sua vida tortuosa, a qual afeta toda a trajetória familiar, até o final do romance.

O belo enredo criado pelo escritor envolveu milhares de leitores, com certeza pela identificação da vida “real” com a ficção. O filósofo Francisco Bosco, num capítulo de seu livro, “E livre seja este infortúnio”, analisa o drama existencial desta ficção, utilizando algumas ferramentas da psicanálise. Na visão dele, o ponto fundamental da trama foi a injustiça sentida por Yaqub, que, após ter sido ferido por Omar, foi enviado para longe da família, por decisão de sua mãe. A partir deste fato traumático, e através da introspecção (ascese), faz um planejamento de deixar a família, como uma forma de se libertar da idéia de ter sido preterido em relação ao seu irmão, Omar. Já este, persiste dependente de sua mãe superprotetora por toda a saga, e que, apesar de “permitir” seus excessos e sua irresponsabilidade, o mantém “preso aos seus tentáculos maternos”, endossando, sempre com “compreensão ilimitada”, suas atitudes. Difícil não termos exemplos próximos, que nos façam traçar um paralelo com esta ficção. De fato, o livro toca no tema central da constituição familiar e de suas dinâmicas, nem sempre tão pacíficas como esperamos, sonhamos e desejamos. Apesar da família ser o núcleo fundamental da constituição dos afetos e da sociabilidade, e fundamental na educação dos menores, além de ponto fundamental da sublimação (transferência) afetiva para com a sociedade (quem recebe amor, em geral, retribui o amor), não é isenta de constituir traumas. Citando o sociólogo da USP, Francisco de Oliveira, sobre os traumas (físicos e psicológicos); diz ele: “O universo familiar esconde e apresenta uma violência privada, não controlada pela sociedade. A família, como a sociedade, é dinâmica, e sua constituição se modifica com o correr da história humana”. Diante das discussões que o livro poderia suscitar, poderíamos nos perguntar: Será que todos os membros de uma família se amam na mesma intensidade? Será a forma familiar atual, eterna e imutável? Por estas e por outras, este romance entra no cardápio das dicas, aos interessados.

O livro já foi adaptado para o teatro, e até para história em quadrinhos, e possivelmente será adaptado para o cinema.