Desde o inicio da infância aprendemos a ver a realidade, inicialmente pelos elementos da própria natureza
que nos cerca (fome, frio, calor, sede…), e no decorrer da infância nos socializamos, através da família e da sociedade (escola,
brincadeiras, trabalho…), e finalmente pela linguagem (falada e escrita), entendemos o mundo e seus códigos. Portanto, através da educação, apesar de desenvolvermos certa autonomia, muito de nosso entender do mundo se dá pelos elementos históricos e culturais, pré-impostos.

murilo-rubiaoNa literatura, que é uma das formas de se “ler o mundo”, e descrevê-lo, não se encontram muitos escritores que enveredaram na construção do que se denominou de “literatura fantástica”. Alguns exemplos mais conhecidos são: Edgar Allan Poe, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marques, Franz Kafka, e no Brasil, um deles é o escritor mineiro, Murilo Rubião. Detalhe: não se trata aqui de ficção científica, pois as definições e características estilísticas são diferentes.

Pergunta-se, ironicamente, como no Brasil, um país que tem características surrealistas, encontram-se tão poucos escritores da literatura fantástica. Rubião, durante sua vida literária, escreveu em torno de 40 contos, bem articulados e com características bastante singulares, e que ao lê-los nos causa uma sensação de estranheza, pois introduz elementos insólitos em meio à trama, e de uma criatividade ímpar. Há muita similaridade entre a construção de Rubião e as situações absurdas de Kafka. Para tentar compartilhar com o leitor, descrevo a síntese de 03 contos que compõem seu livro “Contos Reunidos”. No primeiro, cujo titulo é “O Edifício”, o autor relata a construção de um prédio de mais de 800 andares!!!, cujas fundações demoraram 100 anos para serem concluídas!!! O engenheiro, após o octagésimo centésimo andar, descobre o absurdo da empreitada e resolve terminar a construção, mas os operários, mesmo sem os salários!!!, resolvem trabalhar no prédio que não teria fim!!!. Numa interpretação livre, pessoal e subjetiva, perguntaria: o que tal empreitada significaria? Me parece sugerir o próprio absurdo da empreitada humana, onde apesar de nos envolvermos em projetos variados, no máximo podemos delimitar projetos pessoais de curto alcance, porém estamos longe de podermos entender os grandes projetos, de longo prazo. Qual seriam os planos de uma grande empresa? ou de um país, a longo prazo? Sim, podem crescer, mas para onde? qual o sentido disso?

No segundo conto, de nome “Bárbara”, o escritor descreve uma mulher casada, que apresenta vários desejos deaquisição de objetos absurdos (um grande navio, um baobá, o oceano..),que tentam ser satisfeitos por seu angustiado esposo, e ela, apesar de não comer tanto, engorda sem parar, se avolumando em extremos ficcionais.

Apesar de não corresponder afetuosamente ao marido, ele continua tentando satisfazêla. No fim do conto, ela olha para o céu noturno e lhe pede uma estrela do céu!!!, e o marido sai, para tentar satisfazê-la mais uma vez. Aqui, a questão é discutir, onde se encontra o limite do desejo humano, que apesar de acumular-se através dos fetiches do consumo (a obesidade extrema da personagem), nunca serão de fato satisfeitos.

De quebra, este conto mostra a relação submissa, do esposo, que tenta satisfazer seus desejos absurdos, e que na vida íntima amorosa é muito frequente. No terceiro conto, “Teleco, o coelhinho”, Rubião, descreve a relação de um homem, que encontra na rua um coelho que fala e lhe pede um cigarro!!

Leva ele para casa, cuida dele, e o adota. O problema é que o coelho se metamorfoseia em vários animais, até que certa ocasião diz que é um homem!!!, apesar de suas feições de roedor. Apaixona-se por uma sirigaita e sai de casa, mas, no final do conto, retorna ao seu cuidador e seu antigo lar, e numa metamorfose veloz, frenética e ininterrupta, acaba morrendo nos braços de  seu cuidador, na forma final de uma criança. Aqui pode-se pensar que se problematiza a busca eterna do ser humano por uma  identidade; da necessidade humana do outro nos reconhecer e entender, e na dificuldade de nos entendermos.Com esta  síntese, creio ter chamado a atenção para a fecundidade e a riqueza literária deste autor pouco conhecido entre nós.