É impossível, diante do documentário “ESTAMIRA”, não se impor a discussão do problema de exclusão social no Brasil. Fruto de uma complexa conjunção de fatores econômicos, históricos, políticos e culturais, ecoam sobre nós as aflições e sofrimentos gerados no passado e perpetuados no presente. Do leque de motivos, sobressaem dois fatores principais: o legado secular da escravidão, fonte de violência, injustiça e falta de oportunidades; e o legado da herança colonial portuguesa, fonte de distribuição de privilégios às elites, manutenção da ordem excludente e do autoritarismo endêmico. Boa parte das ideias e das forças políticas atuais, que disputam a hegemonia das ações, se debatem sobre os temas que são resquícios destas causas primordiais de nossa desigualdade, tentando superá-las (ou não!).

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O documentário de 2005, dirigido por Marcos Prado (coautor de “Tropa de Elite” com José Padilha), premiado mundialmente, retrata o dia a dia durante dois anos da protagonista do filme, ESTAMIRA. Mulher, negra, idosa, miserável, esquizofrênica, e que sobrevive como catadora de lixo no aterro sanitário de Gramacho. Acompanha sua rotina, desde sua ida diária até o aterro; seu preparo para o trabalho; o convívio com os demais trabalhadores; e o depoimento de seus familiares, que remontam suas histórias de vida traumáticas e o constrangimento pela vida da personagem. Sua “naturalidade” no trabalho no lixão choca nossos olhares civilizados e higiênicos. Porém, o ponto alto do filme são os pensamentos e frases desconcertantes, além de sua força e convicções impressionantes diante do cenário hostil e insalubre onde trabalha. Misturando todo um discurso “filosófico e poético”, ela discorre sua fala entrecortada, cheia de neologismos, com entonações megalomaníacas, por vezes contraditórias, associada com sua expressão facial e gestual que por vezes assusta, mas que nos emocionam e nos fazem refletir sobre os assuntos que aborda. Por trás da figura frágil e desorganizada, surgem opiniões e julgamentos de uma coragem e “lucidez”, que brota em meio da penúria e montanhas de lixo. Discursa sempre em primeira pessoa, com tonalidades imperativas. Comenta sobre si, seu papel no mundo, sobre fé, política, ecologia, responsabilidade, sobre o sistema social, consumo irresponsável, progresso desenfreado, desigualdade social, de seu atendimento médico-psiquiátrico ineficiente, criando uma lógica discursiva surpreendente diante do caos reinante. Apesar de ser uma vítima social, sua força e dignidade, onipresentes, parecem nos afastar do sentimento de piedade, comum em personagens com seu perfil. Surpreende a fotografia do filme, pois mesmo sendo rodado num ambiente repugnante, asqueroso e hostil, consegue extrair belas imagens (detalhe: o filme é quase todo rodado em preto e branco), de onde nunca poderíamos imaginar. A cena final, quando ela se defronta silenciosa, admirando e contemplando o mar revolto à sua frente, é antológica, pela beleza poética da fotografia.

O filme mexe com nossos conceitos, pois acreditamos que nossos valores civilizados, como sabedoria, razão, ética, estética, afetividade, valorização do outro, estariam somente vinculados aos preceitos históricos, sociais e comportamentais, apreendidos, estabelecidos e construídos pelas culturas ditas civilizadas, e que seriam um modelo a ser seguido obrigatoriamente. Porém, ao assistir o filme, percebe-se que, mesmo em condições extremamente adversas e fora dos pressupostos civilizatórios, a sabedoria, como as demais virtudes, podem resistir e brotar, contestando uma parcela do que acreditamos ser o mundo real, ou o único modo operante da vida.

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Fechando, cito algumas frases de Estamira:
-Aos seres humanos diz serem”-…inocentes… robôs sanguíneos”
-Aos comportados, chamam-nos de “-… espertos ao contrário”
-Sobre a morte diz:”-…vai como se fosse um pássaro, voando…”
-Sobre a sobrevivência:”-…eu não vivo por dinheiro, eu faço dinheiro”
-Sobre a imaginação afirma:”-…tudo que é imaginário tem, existe, é”.
-Sobre sua missão:”-…é revelar a verdade, somente a verdade…”.
-Sobre si: “eu sou o além do além…”
Estamira faleceu aos 70 anos, em 2011, após trabalhar mais de 20 anos no lixão.

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