Há aproximadamente 3 anos se deu a exposição do gravurista holandês Escher, no Centro Cultural Banco do Brasil, que foi bastante visitada. Sabe-se que a contemplação de uma obra de arte cria uma atmosfera de emoções e pensamentos entre o espectador e a obra.

Na arte contemporânea, o espectador “dialoga” com a obra, interpretando e reinterpretando o objeto artístico. Creio que no caso de Escher, ao espectador atento, a primeira sensação é uma mistura de espanto, estranheza e provocação, para, num segundo momento, tentar interpretá-lo.

Como na gravura desta página, intitulada “Relativity”, Escher confunde nosso olhar através da criação de “truques” de distorção da perspectiva (além da luz e sombra), elaborados com perfeição. Afinal, diante desta gravura, buscamos um terreno seguro aonde poderíamos pôr os pés. As figuras humanas em realce, sobem e descem as escadas, em planos e perspectivas obras-de-escher-7independentes, como se a lei da gravidade fosse autônoma para cada uma das figuras na tela. Nosso olhar rodopia buscando um porto seguro, mas não o encontra. Esta gravura exemplifica a obsessão principal das obras de Escher, que foi a de desafiar a perspectiva, elemento fundamental do olhar humano, que nos informa onde nosso corpo se situa no espaço e nos traz a sensação de segurança.

Nas artes plásticas, a técnica da perspectiva foi desenvolvida no período do renascimento italiano até nossos dias. Curioso no caso de Escher é que, apesar de ser um artista do século 20, se manteve um artista figurativo e provocativo, apesar da moda predominante ser a do abstracionismo. Porém, a obra de Escher, além de ser extremamente criativa e imaginativa, mais do que a busca da beleza, nos desafia do ponto de vista geométrico e filosófico; pois coloca em suas gravuras elementos como o objetivismo, o relativismo e o perspectivismo, onde tais conceitos são de fundamental importância quando se pensa nos conceitos de verdade e realidade.

Em brevíssimas palavras, o objetivismo seria a idéia de que o ser humano poderia ter acesso através do pensamento e da experiência à verdade e à realidade; e que só existiria uma única forma de explicar tal fato. A explicação científico-matemática seria uma forma de ideal platônico (do filósofo Platão). O exemplo seria o do objetivismo científico. Já o relativismo e o perspectivismo (apesar de pouco diferentes entre si), seriam formas de refletir sobre um fato ou objeto analisado, onde não há uma única forma do objeto a ser analisado, isto é, dependeria do ponto de vista de quem analisa o fato. Alerto que tais fatos não são meras opiniões, pois tanto o objetivismo como o relativismo se baseiam em argumentações e não em meras opiniões (que de fato proliferam em nosso mundo, mas sem base argumentativa.

A história das mentalidades e do pensamento teve um predomínio religioso por séculos e milênios, até a chegada da revolução industrial, da revolução científica (Séc. 17), do iluminismo e da revolução francesa (Séc. 18), onde a razão e a ciência passaram a ser hegemônicas nas formas de pensar. Porém, no final do século 19 até os dias de hoje, fatos empíricos e teóricos começaram a abalar esta hegemonia, seja na ciência, sociedade, cultura e filosofia.

As teorias da relatividade e quântica na física; a teoria da incompletude matemática de Godel; a psicanálise de Freud (explicando o inconsciente e que este seria muito maior do que a porção consciente e racional do ser humano); as descobertas e manipulações genéticas; na filosofia: Nietzche, Wittgenstein, Derrida, Karl Popper, Feyerabend, Edgar Morin, Lipovetsky e os existencialistas (em conjunto mostraram como há fragilidades enormes nos enunciados filosóficos e na ciência); na sociedade, as duas grandes guerras e os genocídios, que mostraram a irracionalidade do ser humano, além dos totalitarismos; a revolução soviética, seguida da queda do bloco soviético 70 anos após; acontracultura dos hippies, direitos civis dos negros, das minorias e do feminismo; a ascensão do indivíduo e do individualismo na sociedade de consumo; a crítica à tecnologia instrumental e do progresso ilimitado(exemplo: o espectro da destruição nuclear e as questões das crises ambientais). Todos em conjunto geraram a “crise da razão”, onde não haveria uma única forma de se entender o fenômeno humano.

Diante disso, a obra de Escher se insere como uma forma de alegoria do(s) século(s) em transformação, através da criacão de múltiplas perspectivas do olhar, contribuindo para refletirmos de maneira mais ampla e complexa sobre o ser humano e seu destino.

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